Captulo 7

Comportamento

Ser difcil compreender os captulos seguintes sem que primeiro 
resolvamos um problema que parece apresentar srias dificuldades 
para muitas pessoas. 
Quando me referi  experincia objetiva, chamei, repetidas vzes, a ateno para o fato de que as coisas, seus 
movimentos e suas mudanas se apresentam como fora ou diante de ns. Ao mesmo tempo, salientei que a 
experincia objetiva depende de processos cerebrais. Como poder, ento, essa experincia aparecer diante de 
ns? No pode haver dvida a respeito dos fatos em si mesmos.  indiscutvel que, em certas condies, um 
som pode parecer localizado em nossa cabea, mas a rvore, que se encontra acol,  vista, sem sombra de 
dvida, como algo distante, e a janela embora muito mais prxima, est, incontestvelmente, fora de ns. Do 
ponto de vista funcional, contudo, a existncia dsses objetos visuais  uma questo de processos que 
ocorrem em nosso crebro e, portanto, em ns. As mais simples consideraes fisiolgicas provam tal coisa. 
Parece aconselhvel examinar-se logo o aspecto fisiolgico do problema. Para simplificar, procederemos, a 
princpio, como se o campo visual fsse a nica experincia objetiva que temos. Uma coisa , ento, 
imediatamente evidente. Embora, em geral, tenhamos muitos objetos diante de ns, sua totalidade parece to 
bem ordenada, em um espao visual, que qualquer coisa particular tem relaes espaciais muito claras com 
tdas as outras. (Esta afirmativa  um tanto superficial, porque deixa de lado o agrupamento especfico dos 
objetos, mas  suficiente para nossos objetivos imediatos). O lpis em cima de 
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minha escrivaninha est mais perto do livro que da lmpada; a esptula est entre o livro e a caneta-tinteiro, etc. 
Do mesmo modo que tdas as outras caractersticas do campo esto associadas com fatos fisiolgicos do crebro, tambm 
a posio relativa dos objetos, constatados pela experincia, depende de alguma espcie de ordem nos processos que 
constituem sua base fisiolgica. A simples localizao geomtrica dsses processos, contudo, no pode ser correlativo da 
ordem espacial, constatada pela viso. Considero como indiscutvel que tudo quanto  experimentado tem uma base 
funcional, isto , depende de acontecimentos fsicos reais. Se sse postulado fr aplicado aos fatos em que se baseia o 
espao experimentado, seremos, inevitvelmente, conduzidos aos conceitos da fsica de campo. Nesta parte da cincia,  
tida como natural a considerao do que podemos chamar de processos-em-extenso. A expresso que acabo de usar  
apenas um sinnimo de processos autodistribudos a que me referi no Captulo IV. Em tais processos, convm lembrar, os 
fenmenos locais, quando ocorrem, smente ocorrem dentro da distribuio como um todo. Assim, todo o estado de 
funo, grandemente ampliado,  uma unidade. Nas unidades dessa espcie, as distncias podem ser medidas em polegadas. 
De acrdo com nosso postulado, contudo, ste no  o meio pelo qual as distncias devem ser medidas, se quisermos 
encontrar o correlativo da extenso experimentada. Em vez disso, escolhemos como correlativos as relaes dinmicas entre 
as partes dos processos que mantm as partes tais como elas so. Essas relaes se estendem, de maneira contnua, por 
todo o processo, e  sua geometria funcional que supomos ser isomrficamente relacionada com as caractersticas 
espaciais dos campos perceptivos. Naturalmente, as relaes dinmicas em questo atuam nos tecidos, isto , nas clulas, 
fibras e lquidos dos tecidos, que ocupam certos volumes do espao fsico. Presumimos, porm, que, no que diz respeito ao 
nosso problema, smente importam as relaes dinmicas, ao passo que no tm significao direta as distncias e reas 
geomtricas atravs das quais se estende a ordem dinmica.  bem verdade que, de maneira considervel a ordem dinmica 
depende da geometria do meio em que ocorre. Assim, por exemplo, uma grande distncia em funo da geometria do 
crebro ser, provvelmente, ao mesmo tempo, uma grande distncia funcional, e assim por diante. Essa dependncia, 
porm, est longe de constituir uma identidade, pois, em primeiro lugar, as relaes dinmicas dentro do processo so 
relaes funcionais, ao passo que nenhuma relao geomtrica constitui funo nesse sentido, e, em segundo lugar, a 
extenso funcional,  qual me refiro, depende no smente das dimenses geomtricas do meio como tambm das leis de 
Fsica que determinam a autodistribuio. Ns pargrafos 
1 Bem recentemente, o conceito do espao funcional foi mais amplamente desenvolvido em: W. Kihler e H. Wallach Figural After-Effets. An 
Investigation of. Visual Processes. Proc. Amer. Pitiios. Soc. 88. N. 4, 1944. 
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seguintes, a localizao relativa de objetos no espao visual ser considerada como correlativo das posies relativas de 
processos locais correspondentes, dentro da rea visual do crebro. As observaes precedentes destinam-se a tornar claro 
que, quando  usada a expresso posio relativa de processos, deve ela ser compreendida sempre como relaes 
funcionais e no puramente geomtricas. 
Voltemos  questo surgida no como dste captulo. Seria aconselhvel examinar-se um exemplo concreto. Na experincia 
visual, o lpis que se encontra sbre a escrivaninha est fora do livro e a certa distncia dle. Nestas condies, h no 
crebro dois processos locais, um correspondendo ao lpis e outro correspondendo ao livro. Alm disso, os neurologistas 
nos ensinam que tais processos ocorrem em lugares diferentes do crebro visual, e devemos acrescentar que as relaes 
funcionais entre les so aquelas que significam certa distncia funcional. Proponho-me, agora, mostrar que a localizao de 
objetos fora de ns mesmos parte diretamente dessa considerao. Minha mo, por exemplo, aparece, ou pode aparecer, no 
mesmo campo visual de outros objetos visuais. Evidentemente, do mesmo modo que ste nvo objeto visual est fora do 
lpis e do livro na experincia visual, assim tambm os processos correspondentes no crebro devem estar fora dos 
processos correspondentes ao lpis e ao livro. tanto geomtrica como funcionalmente. A mo, como objeto visual, merece o 
mesmo tratamento terico que  dado ao lpis e ao livro, e a relao espacial entre a mo e o lpis ou o livro deve ser 
considerada da mesma maneira que a relao especial entre aquelas duas coisas. Via de regra, meu campo visual contm, 
naturalmente, mais partes de mim mesmo que a mo: o brao, por exemplo, os ps freqentemente, o peito e, embora 
apenas como viso extremamente perifrica, a ponta do meu nariz. Tdas elas so entidades visuais, exatamente como o 
livro e o lpis. Assim, em meu crebro como sistema fsico, deve haver processos que correspondem a essas partes de mim 
mesmo, da mesma maneira que h processos que correspondem a coisas tais como lpis, livros, etc. Alm disso, os 
processos cerebrais que revelam o livro visual, o lpis visual e todos os outros objetos visuais em trno de mim devem 
estar separados dos processos q je revelam o brao, os ps, o peito e o nariz visuais. A razo  a mesma que a do caso do 
livro e do lpis como coisas separadas; o livro fsico e o lpis fsico so projetados sbre partes diferentes da retina e, 
portanto, do origem a processos em partes diferentes do crebro visual. Isto tambm  verdade no que se refere s partes 
visveis do meu organismo em suas relaes espaciais com os objetos externos. Suas localizaes retinianas diferem das de 
tais objetos e, em conseqncia, os lugares correspondentes no crebro so diferentes dos lugares nos quais os objetos 
externos so fisiolgicamente representados. 
No tocante ao princpio, esta  a soluo do nosso problema. Meu corpo como uma experincia  que na linguagem comum 
chamamos 
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de eu  , at certo ponto, uma coisa visual, do mesmo modo que um lpis ou um livro so coisas visuais. Ora, da mesma 
maneira que as coisas aparecem fora umas das outras, o eu aparece visual- mente externo s coisas e vice-versa. Se o 
aparecimento daquelas coisas em lugares diferentes no causa assombro a quem quer que seja, porque essa separao pode 
ser compreendida em funo da localizao de seus correlativos fisiolgicos no crebro, no temos motivo para nos 
surpreender com a posio relativa de tais objetos visuais, por um lado, e o eu visvel, por outro lado. No se torna 
necessria, assim, qualquer hiptese especial para explicar porque sou visualmente separado de tais objetos e les de mim. 
Se h qualquer paradoxo no aparecimento dles externamente, isto , fora de mim, ento exatamente o mesmo paradoxo 
deveria ser encontrado na relao espacial, digamos, do lpis e do livro. As pessoas em geral no conhecem tal coisa 
simplesmente porque deixam de distinguir o corpo, como experincia perceptiva, do organismo, como sistema fsico, 
que, como tal, jamais ocorre em qualquer experincia. Naturalmente, tais pessoas tambm ignoram o fato de que a parte 
visual do eu  fisiolgicamente causada pela projeo de partes do organismo sbre sua prpria retina e pelos processos 
correspondentes no crebro que tm uma localizao particular em que esto cercados pelos processos correspondentes a 
outros objetos visuais. No creio que a confuso termine jamais, a no ser que nos acostumemos a dar um nome ao eu 
perceptivo e outro ao organismo fsico. Sugiro, como tenho feito nestas linhas, que o primeiro seja chamado de corpo, 
ficando o vocbulo organismo reservado ao sistema fsico que deve ser estudado pelos anatomistas e fisiologistas. 
Quando comparada a esta explicao, torna-se, sem dvida, indefensvel a idia de que as coisas devem ser experimentadas 
como estando dentro de ns. No h maior razo para pensar assim do que para supor que o lpis deveria ser visto dentro 
do livro, ou de uma nuvem, ou da lua. Se algum objetar, dizendo que, afinal de contas, todos os processos perceptivos 
ocorrem no crebro e, nesse sentido, no meu interior, qual deve ser a resposta? Devemos responder que a experincia visual 
corresponde  totalidade dos processos autodistribudos no setor visual do crebro e que tdas as relaes no espao 
visual, de que algum pode tomar conscincia, repousam em relaes funcionais dentro de sua totalidade. Em tais 
condies, outros objetos visuais devem aparecer fora do eu visual. Por outro lado, jamais experincia alguma 
corresponde  localizao anatmica ou geomtrica de quaisquer processos visuais dentro do crebro fsico. Dsse modo, a 
l6calizao no pode participar da determinao dos lugares em que vemos as coisas. Se algum espera que as coisas vistas 
sejam experimentadas como ocorrendo no crebro, no compreende que a primeira parte de sua frase refere-se ao campo 
visual como experincia, ao passo que a segunda parte, em que se encontra a expresso crebro, refere-se a 
um objeto fsico em espao fsico. Isso quer dizer que tal pessoa espera que partes de espao visual sejam localizadas em 
relao a partes de espao fsico, o que  uma coisa inteiramente impossvel. 
O fato de os objetos visuais serem to claramente localizados fora do eu visvel espanta tdas as pessoas que ouvem 
dizer que as coisas, cres, etc, dependem de fenmenos que ocorrem dentro de si mesmas. Naturalmente, essa afirmao, 
smente ser correta se tomada no sentido fisiolgico, em que dentro de si mesmas se refere ao organismo, que no 
participa da experincia. E uma noo que no parece correta e clara a pessoas que no aprenderam a distinguir o organismo 
fsico e o eu como uma coisa particular experimentada. Sem dvida, em sua maior parte as coisas distantes no parecem 
depender dessa experincia particular, o eu. E por que dependeriam? Na experincia visual, uma rvore depende to 
pouco de mim, tomada no sentido de experincia, como o processo mental que corresponde  rvore depende dos 
processos que correspondem ao eu experimentado. Ocasionalmente, como vimos antes, pode ocorrer e ser experimentada 
uma certa influncia; de um modo geral, porm, eu e a rvore dependemos to pouco um do outro como quaisquer outras 
unidades isoladas dependem umas das outras, quando separadas por distancia considervel. 
Talvez tudo isso seja bem conhecido para ser mais uma vez discutido demoradamente. H alguns anos, contudo, um 
psiquiatra europeu afirmou ser ste o mais difcil problema entre os que dizem respeito ao espfrito com relao ao corpo: 
como podem as coisas aparecer fora de ns, quando na realidade esto localizadas dentro de ns? 
At agora, temo-nos considerado, a ns prprios, e considerado as coisas exclusivamente como experincias visuais. A 
situao, contudo, permanecer a mesma se considerarmos tambm outras experincias. As coisas e suas propriedades 
podem ser experimentadas pelo tacto em lugar da viso. Tambm podem ser sentidas pelo calor ou frio; tm cheiro, so 
pesadas e emitem sons. Tdas essas experincias esto localizadas em um espao perceptivo, seja com preciso, seja 
apenas de maneira vaga. Mais particularmente, tdas tm uma localizao relativa aos fatos visuais. Assim, uma voz pode 
ser ouvida do lado de fora ou do lado de dentro da janela; um aposento, tomado como cena visual, pode estar com cheiro de 
cigarro e a superfcie fria do copo que tenho na mo  sentida onde o objeto  visto.2 O fato de tdas essas experincias 
sensoriais aparecerem em um espao comum pode ser explicado de vrias maneiras. O motivo pode ser o mesmo que se d 
no caso da viso binocular, na qual, apesar do fato de atuarem dois rgos sensoriais, os dois olhos, tda a experincia est 
localizada em um s campo. Neste caso, sabemos que a cooperao dos dois olhos, fome- 
2 A 5 respeito, n5o importa saber se a iocailzaSo, por exemolo, de Sons. Com re.laao a objetos visuais,  invariyelmente correta. Se no fr 
correta, o prprio rato a que posso atribuir o desvio constitui uma prova de que ambos aparecem no mesmo espao. 
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cendo-nos um s campo visual , pelo menos em parte, fruto de fatres hereditrios.  possvel, embora no se 
tenha provado, que o mesmo seja verdade para a cooperao da viso, tacto, etc., para nos oferecer um espao 
sensorial em geral. Tambm  possvel que as vrias modalidades dos sentidos estejam localizadas em um 
espao comum, porque aprendemos desde a mais tenra infncia que elas devem ser correlacionadas 
espacialmente. Alm dessas presunes, que representam, naturalmente, as possibilidades nativistas e 
empricas na teoria da Psicologia, tambm deve ser considerada uma terceira explicao: na mais tenra infncia 
as experincias das vrias modalidades dos sentidos podem ter sido mais ou menos adequadamente unidas em 
um s espao por motivos de ordem dinmica. Qualquer que seja a interpretao correta, a verdade  que 
todos os fatos sensoriais aparecem em um espao, o espao em que tambm os objetos visuais e o eu visual 
esto localizados. Como conseqncia, algumas das experincias no visuais (como, por exemplo, a maioria 
dos sons) so, como a maior parte dos fatos visuais, localizados no exterior. Outros fatos no visuais, tais 
como os da cinestesia, parecem estar dentro do eu, mas, ainda assim, no mesmo espao geral que contm as 
experincias exteriores. No interior tambm encontramos, naturalmente, estados subjetivos como a sensao 
de cansao, de bem-estar, de animao, de irritao, etc. De um modo geral, podemos dizer, os dados no 
visuais so muito bem localizados com referncia aos fenmenos visuais.  de se deduzir que, se a localizao 
externa dos objetos visuais no oferece problema, o mesmo deve dar-se em todos os casos em que fatos no 
visuais aparecem fora do eu. 
Depois desta explanao preliminar, podemos voltar, agora, a uma velha questo. Por que atribumos aos 
outros experincias mais ou menos semelhantes s que temos ns prprios?  o que dizemos constantemente, 
no apenas de um modo geral, mas tambm espedficamente, em casos particulares. Evidentemente, portanto, a 
questo se refere a um fato fundamental da psicologia social, mas, ao mesmo tempo, a um fato intrigante, pois, 
algumas vzes, as outras pessoas parecem reconhececer, de fora, nossas prprias experincias com maior 
clareza do que podemos observ-las de dentro. Assim, por exemplo, tenho dificuldade em descrever a 
experincia ntima da hesitao ou falta de determinao. No obstante, outras pessoas dizem que tais estados 
se refletem claramente em meu rosto, e eu me mostro disposto a concordar com elas, unia vez que conheo 
muito bem aquela expresso fisionmica, por j t-la observado em outros. Creio que foi Nietzsche quem 
afirmou que, de certo modo, o tu antecipa o eu. Isto se aplica, antes de mais nada, ao nosso conhecimento 
do carter e personalidade. Nossas experincias subjetivas esto longe de nos apresentar uma imagem 
adequada de nossa prpria pessoa, ao passo que outras pessoas, muitas vzes, reconhecem em poucos 
minutos seus traos principais. 
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No creio que as coisas que as outras pessoas dizem constituam os elementos mais dignos de confiana a 
sse respeito, muito embora suas afirmaes possam ser consideradas descries de suas experincias. A 
maior parte das pessoas no fala a respeito de suas experincias em si mesmas. Alm disso, freqentemente, 
atribumos s outras pessoas afetao ou modstia, amistosidades ou frieza, sem que elas digam uma nica 
palavra a respeito de seus sentimentos. Em pases estrangeiros, reconhecemos muitas vzes se os outros so 
indelicados ou amveis, embora sua lingua possa ser para ns de todo desconhecida. Mesmo quando 
entendemos as palavras de outras pessoas, a maneira com que elas falam pode-nos ser mais valiosa para 
interpretar seus sentimentos do que as prprias palavras. Em algumas situaes, uma espcie de silncio pode-
nos dizer mais do que muitas afirmaes que poderiam ser feitas de acrdo com as circunstncias. O 
comportamento dos macacos mostra que les geralmente se entendem entre si muito bem, embora no tenham 
linguagem no sentido humano da expresso. Por sses motivos, a linguagem, como meio de comunicao de 
significado por palavras e frases, dificilmente desempenhar um papel nos comentrios que se seguiro. Estou 
convencido de que, de qualquer maneira, estaremos em condies de examinar relevantes aspectos do 
problema que nos interessa. 
A resposta que os filsofos tm dado  pergunta que acima formulamos  bem conhecida: uma vez que no 
posso perceber diretamente o que outra pessoa experimenta, a nica prova de que disponho, no que diz 
respeito aos seus processos mentais, vem de seu corpo. De maneira mais particular, so os acontecimentos na 
superfcie dsse objeto que me fornecem a informao. Mas os acontecimentos dessa espcie naturalmente 
nada tm de comum com as verdadeiras experindas da outra pessoa. Assim, a nica conexo entre a minha 
prova e essas experincis (que permanecem inobservadas)  indireta, e se baseia no fato de tenderem as 
experincias cientficas a ser acompanhadas por alteraes expressivas igualmnte especficas do corpo de 
uma pessoa. Tomei conhecimento pela primeira vez com essa conexo em meu prprio caso; verifiquei que 
minhas vrias experincias tm correlao com certos movimentos e alteraes em meu corpo. Depois de 
freqentes repeties, esta observao me leva a tirar uma inferncia por analogia, quando percebo os mesmos 
acontecimentos corpreos em outros. Comeo a acreditar que, em seu caso, sses acontecimentos podem ser 
tomados como sintomas de processos mentais correspondentes. Do fato de ser ste planta habitado por 
organismos, deduz-se, algumas vzes, que tambm deve haver criaturas vivas em outro planta, como Marte, 
que  semelhante  Terra, sob alguns aspectos. Sem dvida, essa deduo  da mesma espcie que aquela de 
que estamos aqui tratando. Infelizmente, o paralelo astronmico mostra que as dedues dessa espcie no 
podem ser consideradas como muito seguras. Alm disso, a teoria tem pouco apoio na observa- 
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o. Na vida quotidiana, as pessoas no procedem dsse modo, conquanto ao mesmo paream compreender 
muito bem seus semelhantes. 
Por sse motivo, os psiclogos propem uma explicao diferente. No alteram,  verdade, o ponto de partida: 
le continua a ser a afirmao de que verificamos serem as nossas prprias experincias acompanhadas por 
certos fenmenos corporais. Agora, porm, chegamos ao ponto em que a explicao psicolgica  diferente da 
teoria filosfica: 
segundo os psiclogos, a repetio constante produz acentuadas associaes entre nossas experincias e os 
fenmenos corporais correspondentes. Em conseqncia, sempre que tais acontecimentos corporais ocorrem 
em outras pessoas, as experincias correspondentes so imediatamente reestruturados. Alm disso, no h 
necessidade de que a recordao consista no aparecimento de imagens e idias; pode assumir a forma da 
chamada assimilao, em que o fato que evoca a reestruturao aparece impregnado do fato reestruturado. J 
houve referncia  assimilao em outros captulos. Ela atua quando o smbolo + d a idia de adio, quando 
um esquife aparece impregnado do horror da morte e quando uma bandeira parece ter absorvido as virtudes 
particulares de um pas. Da mesma maneira, dizem-nos, as modificaes corporais vistas nos outros parecem 
agora impregnadas de experincias que tivemos freqentemente, quando tais mudanas ocorriam em nosso 
prprio caso. Em resultado, a amistosidade pode parecer visvel na fisionomia dos outros, ou a raiva ser 
perfeitamente audvel em um grito de animal. 
Ser desnecessrio observar que se trata, mais uma vez, de uma teoria emprica, que deve ser encarada com 
cautela. Se fsse correta, seramos incapazes de compreender qualquer comportamento que no tivesse 
freqentemente ocorrido em ns mesmos. Os fatos no se mostram muitos acordes com esta concluso. Por 
acaso no compreendemos outras pessoas que so extremamente diferentes de ns mesmos? A tpica 
virilidade de Douglas Fairbanks impressionava-me muito, embora, infelizmente, jamais eu pudesse oferecer algo 
de comparvel. Por outro lado, algumas vzes vejo estampado no rosto de outra pessoa uma repelente 
ganncia, para a qual no existe correspondente em minha prpria experincia. 
A interpretao filosfica da compreenso social no era menos emprica do ue  a explicao psicolgica. 
Por que ambas admitem que a compreenso que temos dos outros deve ser um processo inteiramente indireto? 
Evidentemente, tanto os filsofos como os psiclogos presumem ser diferentes, sob todos os aspectos, as 
caractersticas dos processos mentais, por um lado, e a conduta susceptvel de de ser observada, por outro 
lado. Partindo-se dessa premissa, a nica relao possvel entre os fatos da primeira e da segunda espcie ser 
uma concomitncia externa, embora regular, e seguem-se as conseqncias empricas. Se, porm, a premissa 
fsse correta, deveria ser fcil separar na impresso que temos de outras pessoas os ingredientes que 
tiveram sua origem em nossas prprias experincias mentais do passado, e os componentes que constituem 
meros fatos do comportamento. Fatos incomparveis no podem ser amalgamados em unidades insusceptveis 
de serem analisadas. Se, porm, em uma fisionomia aparentemente amistosa tentarmos separar a amistosidade 
das caractersticas do rosto em si mesmas, verificaremos tratar-se de uma tarefa asss difcil. Enquanto 
considerarmos o rosto como um todo, e no como um mosaico de partes coloridas, a amistosidade parece 
permanecer como caracterstica intrnseca do rosto. 
J formulamos a premissa que leva s interpretaes empricas do entendimento social. Por que motivo, porm, 
foi essa premissa geralmente aceita? Por que supem os tericos que os processos mentais e os fatos do 
comportamento que os acompanham nada tem em comum? A resposta  bem evidente. Segundo Descartes e 
muitos outros filsofos, os materiais e fenmenos da natureza so diferentes toto genere dos contedos e 
processos da esfera mental. Poucas doutrinas tm influenciado o pensamento moderno to fortemente quanto 
essa tese. Infelizmente, ela tambm tem sido aplicada  situao de que estamos aqui tratando. O 
comportamento de outras pessoas, argumenta-se, diz respeito aos seus corpos. Em conseqncia, os fatos do 
comportamento so fatos fsicos e, assim sendo, nada tm em comum com os processos mentais. 
Pelo que aprendemos nos captulos anteriores, verifica-se, sem dificuldade, que ste argumento  errneo. 
Inadvertidamente, usa le a expresso fatos do comportamento em dois sentidos diferentes. Seja ou no 
correto o argumento, quando aplicado ao comportamento dentro da esfera de fatos fsicos, o problema do 
entendimento social no se refere diretamente ao comportamento nesse sentido. Refere-se, em primeiro lugar, a 
fatos perceptivos que uma pessoa experimenta em contacto com outras pessoas, pois tanto os corpos como o 
comportamento dessas outras pessoas se apresentam  primeira pessoa apenas como percepts e mudanas de 
percepis. Disso se conclui que as teses sbre a natureza do mundo fsico e sua relao com os processos 
mentais no cabem em um primeiro estudo do problema. Evidentemente, nosso primeiro problema consiste em 
saber como comportamento, tal como  percebido, pode ajudar uma pessoa a compreender as outras pessoas. 
Procurando solucionar ste problema, no precisamos de pronto fazer qualquer presuno sbre a natureza 
fsica dos fatos. 
No nego, naturalmente, que o comportamento tal como  percebido est relacionado com mudanas que 
ocorrem na superfcie dos organismos em questo, isto , com o comportamento fsico. Tambm admito que 
essas modificaes fsicas no esto diretamente mais relacionadas com os processos mentais das pessoas do 
que esto os fenmenos que percebemos, quando observamos essas pessoas. De qualquer modo, uma vez 
que o comportamento dos outros s nos  apresentado na percepo, nosso conhecimento dos outros deve, 
antes de mais nada, referir-se 
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a essa fonte. Parece, assim, que o comportamento como esfera de fatos perceptivos tambm deve ser nosso primeiro 
sujeito, quando tentarmos solucionar o problema do entendimento social. Afinal de contas, devemo-nos lembrar que, s 
vzes, os percpets nos contam mais a respeito dos fatos do que os acontecimentos, que se interpem entre sses fatos e 
sses percepts (c/ Cap. , pg. 94). Do mesmo modo, o comportamento observado pode-nos revelar mais a respeito dos 
processos mentais dos outros do que se poderia conseguir com um estudo de seu comportamento fsico. 
Nosso problema  particularmente interessante quando se refere s experincias mais subjetivas de outras pessoas, tais 
como suas emoes e seu raciocnio. De certo modo, tais fatos se revelam atravs do comportamento das pessoas, tal como 
o percebemos. Ser, ento, verdade mesmo que o comportamento, nesse sentido, no permite comparao com aqules 
fatos mentais? Ou os fatos mentais se expressam no sentido mais especfico em que o trmo implica a semelhana da 
expresso com o que est sendo expressado? Se esta ltima hiptese pudesse ser apoiada pelos fatos, estaria, 
evidentemente afastada a principal razo de verses rigorosamente indiretas do entendimento social. 
Nestas circunstncias, nossa principal tarefa ser a de comparar experincias subjetivas com comportamentos que, na 
ocasio, so percebidos pelos outros. Procederemos vagarosamente, contudo. Em seus esforos para classificar as 
experincias humanas, a Psicologia tem, em geral, realado diferenas onde um exame mais atento revela notveis 
semelhanas. Como questo de prtica preliminar, consideraremos primeiro tais semelhanas em casos em que no esteja 
envolvida a experincia subjetiva. 
Vejamos as qualidades dos diferentes sentidos. De h muito vem sendo sustentado que essas qualidades nada tm em 
comum. Podemos, no entanto, apontar vrios exemplos que esto em desacrdo com ste ponto de vista. A claridade e a 
escurido, por exemplo, so atributos tanto da experincia auditiva quanto da visual. Tambm se um objeto que tocamos se 
mostra frio, sua frialidade se parece, de algum modo, com o brilho visual; o calor agradvel  escuro, em comparao. J 
observei que a palavra alem rauh (spero)  usada para certas experincias auditivas e tambm para experincias 
tcteis. Em ingls, no smente a superfcie que tocamos, mas tambm o som de uma voz ou o gsto de um vinho podem 
ser chamados smooth.3 O poeta alemo Morgenstern disse, referindo-se s gaivotas: 
Die Mowen seben alie aus, ais ob sie Emma hiessen. 
(Tdas as gaivotas do a impresso de que seu nome  Emma). Acho que Morgenstern tinha tda a razo. O 
som de Emma como um 
3 O adjetivo corresponde, nesse sentido, mais ou menos a suave em portugus. (N. do T.) 
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nome e a aparncia visual da ave me parece semelhantes. Outro exemplo  meu prprio. Quando convidadas a 
identificar as palavras inexistentes takete e maluma com os dois desenhos mostrados nas Figs. 18 e 19, a 
maior parte das pessoas responde sem hesitao. Encontramos provas, realmente, nas linguas primitivas, da 
tese segundo a qual os nomes das coisas e dos fatos, que so perceptveis, tctil ou visualmente, se 
originaram, muitas vzes, com base em tais semelrianas.5 
Depois desta explicao preliminar, voltemos ao nosso problema principal e comparemos as experincias 
subjetivas com os fatos perceptivos. A sse respeito, ser interessante saber que palavras esto sendo usadas 
com referncia a experincias subjetivas. A maior parte das pessoas concordar com a afirmao de que, se em 
comparao com a viso da fvea, a viso perifrica pode ser chamada indistinta, o mesmo trmo se aplica a 
experincias mais subjetivas; a sse respeito, elas se parecem mais com fatos da viso perifrica que da viso 
da 
fvea. Se isso fr admitido, porm, teremos dado um passo importante; reconhecemos que as experincias 
subjetivas tm pelo menos algo em comum com certos fatos perceptivos. Klages coligiu grande nmero de 
palavras que so usadas na descrio de experincias subjetivas, assim 
4 Cf. tambm Usnadze, PsyehoZ. Forsch., 5, 1924. 
5 E. von Hornboatel, Festschi-if  Meinhof. 1927. 
FIO. iS 
Pio. !9 
131 
como de fenmenos perceptivos. Darei apenas alguns exemplos. Algo provoca em ns um sentimento amargo. Outras 
vzes, sentimos uma moleza. A doura do amor ocorre, segundo parece, em todos os pases, assim como alegria 
luminosa ou dor sombria. Na ira, h algo que muitos chamam de ardente. 
Muitas vzes, os trmos em questo referem-se a caractersticas mais dinmicas. Assim, uma expectativa pode ser 
chamada tensa, expresso em que uma experincia subjetiva  comparada com o que sentimos quando tocamos em uma 
corda distendida. Certa maneira de pensar parece-nos reta e todo o mundo sabe imediatamente o que se quer dizer, 
usando-se a palavra nesse sentido. Tanto calma como agitao ocorrem, naturalmente, no campo visual, mas muitas 
vzes as mesmas palavras se referem a fatos da experincia subjetiva. Tambm nos sentimos atrados por alguma coisa 
ou somos levados a repel-la. Algumas vzes, temos o esprito elevado, outras deprimido. O leitor no ter 
dificuldade em continuar a lista. 
No faltar quem se recuse a tirar qualquer concluso de tais fatos, sob a alegao de que nada se pode deduzir de simples 
analogias. No posso, contudo, aceitar sse argumento, pois o que entendemos por analogia  precisamente uma espcie de 
semelhana. Alm disso, quando experincias subjetivas recebem nomes que tambm se aplicam a fatos perceptivos, isso 
no acontece a smo. Se um dsses nomes  aplicado apenas a fenmenos subjetivos particulares, e outro a outros 
diferentes, igualmente particulares, deve haver um princpio que regula as vrias aplicaes. ste princpio tambm deve 
atuar quando, em uma vigorosa descrio de fatos ntimos, algum inventa uma dessas transferncias de trmos e, tambm 
quando os outros compreendem o que le quer dizer. O nico princpio que posso descobrir  que certas experincias dos 
mundos interno e perceptivo se parecem umas com as outras. 
A teoria da vida emocional de James-Lange afirma que as experincias emo- cionais 8,O fatos sensoriais, isto , impresses 
vagas que se originam em nossos miscu1os, vsceras, etc. Pode haver certa verdade nesta teoria. No parece conveniente, 
porm, ligar nossos atuais argumentos com os de outra qualquer teoria.  perfeitamente possvel reconhecer que certos 
fatos perceptivos e emocionais se parecem entre si e, no entanto, duvidar que se possa afirmar a existncia de uma 
identidade. Alm disso, a explanao seguinte tratar, naturalmente, das caractersticas perceptivas que o comportamento 
das pessoas exibe. Em sua maior parte, essas caractersticas so fenmenos visuais e auditivos, que no desempenham 
qualquer papel na teoria de James-Lange. No temos motivo, assim, para sobrecarregar nossas pesquisas com argumentos 
acrca dessa teoria das emoes. 
At agora, ficamos sabendo que, como questo de princpios, os fatos da vida interna e os fatos perceptivos podem ter 
certos traos em comum. A principal pergunta a que temos de responder , contudo, 
6 L. Klages, Vom Wesen des Bewusstseins. 1921. 
muito mais especfica: pode o comportamento de uma pessoa, tal como  percebido pelos outros, assemelhar-
se aos processos mentais dessa pessoa? Passarei a expor alguns exemplos em que a observao parece dar 
uma resposta clara a essa pergunta. 
Dois cientistas russos esto conversando, na minha presena, em seu idioma, a respeito de uma questo em 
que les de h muito discordam. Posso observar seu comportamento como uma questo de fatos visuais e 
auditivos, mas no posso entender suas palavras. Durante algum tempo, a cena  calma. De sbito, contudo, a 
cabea do homem que se encontra  esquerda se move para trs, como se atingida por algo e, a partir dsse 
movimento, tanto o tom de sua voz como a expresso de seu rosto adquirem certa dureza. Logo em seguida, 
tambm se altera o comportamento do outro homem; tenho a tentao de aplicar-lhe a expresso musical 
crescendo. O mesmo fenmeno comea a aparecer no homem que se acha  esquerda. Tambm le age e fala 
cada vez com mais intensidade, de maneira que tda a cena se aproxima de um estado de grande agitao. De 
repente, porm, vejo o homem da direita olhando para um quadro de avisos na parede e sorrindo. Diz algumas 
palavras ao colega, que logo olha para a mesma direo. Depois de um momento de hesito, sua fisionomia se 
adoa um pouco, desanuvia-se gradativamente e, dentro de alguns segundos, a cena era to calma quanto fra 
no como. 
stes cientistas sabem meu idioma e de boa vontade contam o que aconteceu. O homem da esquerda me diz 
que, pouco depois do como da discusso, algumas palavras inesperadas do interlocutor lhe deram a 
impresso de uma ofensa pessoal e que, em conseqncia, le quase perdeu a cabea. O homem da direita 
informa que, de repente, o outro homem comeou a se mostrar teimoso a ponto de no querer ouvir mais 
argumento algum e que, tendo essa impresso, le prprio no pde conter a raiva. O homem da esquerda 
confessa que, pouco a pouco, uma intensa irritao o dominou tambm. Afinal, sou informado de que o letreiro 
da parede era a traduo para o russo de Conserve o seu sorriso. Como o conselho foi til, os dois cientistas 
no tardaram a recuperar um estado de esprito mais calmo. 
No se pode negar que, neste caso, o comportamento percebido de duas pessoas e suas experincias 
subjetivas tm certos traos em comum. Como os vejo, os dois cientistas formam um grupo, cujos membros 
dirigem tdas as suas atividades, um para o outro. Subjetivamente, cada um dles acha que lana suas 
afirmaes contra o outro ou que se defende contra os argumentos do outro. O movimento para trs do homem 
da esquerda mostra, com um fato visual, como le foi afetado pela observao hostil do outro, e o 
endurecimento de suas feies reflete a rgida atitude ntima que le assumira em conseqncia disso. O 
crescendo emocional em ambos que se segue ento  diretamente expresso no crescendo visual e auditivo de 
seu comportamento, tal como o percebo. Posteriormente, eu os vi se voltarem para o letreiro, como 
132 
133 
les realmente fizeram na ocasio. Afinal, eu vi e ouvi voltar a calma, quando suas emoes se aplacaram. 
A lio que se pode tirar dste exemplo  aplicvel muito alm do presente caso. Muitos acontecimentos 
dinmicos na experincia subjetiva tendem a expressar em formas de comportamento percebido que, de certo 
modo, se assemelham queles acontecimentos. Geralmente, tanto os processos emocionais como os 
intelectuais tm caractersticas que tambm so conhecidas graas  msica, isto , pela experincia auditiva. 
Crescendo e diminuendo, accelerando e ritardando so exemplos evidentes. Estas expresses, porm, so 
aplicveis no apenas a fatos auditivos como tambm a fatos percebidos visualmente. Assim, quando tais 
feies dinmicas ocorrem na vida ntima de uma pessoa, podem ser representadas, de maneira muito 
adequada, pelo comportamento dessa pessoa, tal como  percebido, auditiva e visualmente, pelos outros. Na 
verdade,  isto que acontece constantemente. Quando algum se lembra de uma injustia de que foi vtima, 
provvelmente, enquanto sua indignao fr aumentando, caminhar cada vez mais depressa. Assim o maior 
ritmo e a menor intensidade de suas reflexes emocionais so bem refletidos no accelerando e crescendo de 
seus movimentos, tais como so vistos pelos outros. Naturalmente, a mesma agitao ntima pode expressar-se 
em um accelerando e ri/orzando do comportamento vocal. Outra coisa: olhemos uma pessoa em manhs 
diferentes. Algumas vzes, seus movimentos so equilibrados e calmos, mas, outras vzes, sua fisionomia e 
suas mos denotam instabilidade e desassossgo. Tal pessoa no precisar dizer-nos, no primeiro caso, que se 
encontra descansada e bem disposta, e no segundo, que est inquieta; de certo modo, ambas as situaes 
ntimas nos so diretamente evidentes. Do mesmo modo, a hesitao e a incerteza so acompanhadas por 
formas de comportamento que, como fatos perceptivos, se parecem com aqules estados interiores. O 
observador pode, por exemplo, ver movimentos em vrias direes, cada um dles tornando-se mais vagaroso 
mal  iniciado e com sua seqncia destituda de organizao unitria. Alm disso, desde que os sres 
humanos no sejam particularmente inibidos, qualquer brusca descontinuidade em suas experincias ser, 
provvelmente, seguida por sbitos fenmenos de seu comportamento percebido. Em um momento de sbito 
temor, os sres humanos do um pulo para trs, ou estremecem. Quando uma pessoa experimenta aqule 
relmpago pelo qual alguma nova idia nos chega de sibito, pode parar no meio de uma frase e tambm dar um 
tapa na testa. Assim, seus processos mentais e sua aparncia aos olhos dos outros apresentam a mesma 
descontinuidade. Muitas vzes, o comportamento de um homem se revela como organizado de uma maneira 
que est de acrdo com a organizao de sua verdadeira planificao e ao. As aes que vm de uma fonte 
determinadora mostram-se como uma corrente coerente de fatos visuais. Por outro lado, quando a ao, tal 
como  subjetivamente experimentada, consiste de partes relativamente isoladas, a mesma 
articulao provvelmente caracterizar seu comportamefl percebido. Ao discutir o problema, talvez os filsofos e 
psiclogos tenham concentrado demasiadamente a ateno nos movimentos expressvos que acompanham as emoes. De 
qualquer maneira, fatos igualmente relevantes tm sido virtualmente ignorados: o comportamento, no sentido mais prtico 
da palavra, tende a ser encarado como organizado em formas que copiam a organizao dos fatos internos correspondentes 
O leitor encontrar mais exemplos em um livro em que descrevi o comportamento dos macacos.7 
Passo, agora a observaes de uma classe ligeiramente diferente. Tanto na experincia objetiva como na subjetiva, a direo 
pode acarretar tensao. Por exemplo: se minha ateno  atrada por um objeto estranho como uma cobra, essa direo de 
meu ser  acompanhada por um sentimento de tenso. Naturalmente, uma pessoa que estiver prxima ver meu rosto e 
meus olhos voltados para o lugar em que se encontra o objeto, mas, na tenso de meu rosto, ela ver tambm uma imagem 
visual de minha tenso interna, e essa tenso se referir ao mesmo lugar. Pode-se objetar que entre meu rosto e a cobra no 
existe estmulos nos quais se pudesse basear uma percepo da relao de tenso. ste argumento  errneo, pois no leva 
em considerao os fatos do agrupamento visual. Quando algum percebe que meus olhos tomam uma direo particular  e 
a sse respeito os olhos humanos so extraordinrjamente expressivos  as partes do campo que se acham naquela direo 
ficaro imediatamente relacionadas com meus olhos, meu rosto e tda a minha pessoa. Os agrupamentos dessa espcie no 
so mais enigmticos do que so os casos de formao de grupo de que tratamos em captulo anterior. O mesmo se d nos 
casos em que a pessoa em questo se afasta de um objeto. Tambm a a relao pode ser perfeitamente evidente para um 
observador num campo visual. Como exemplo, cito as seguintes palavras, tiradas da descrio de uma famosa experincia: 
Ie estendeu o brao para tocar a cabea do animal com o dedo indicador da mo esquerda, mas afastou-a de sbito antes 
do contacto. 
(Um pouco de l em um papel de embrulho  apresentado a uma criana.) Ela comeou a brincar com o papel, evitando o 
contacto com a prpria l. 
Ambas as informaes constam do trabalho do Dr. Watson sbre experincias com crianas de tenra idade.8 A primeira 
informao significa que se viu o movimento do dedo dirigido para o animal; nenhuma outra interpretao pode ser dada  
expresso estendeu. Os mtodos objetivos de observao, tal como Watson compreendia a expresso, naturalmente no 
encontraro qualquer conexo entre o 
7 T)i Meiztality of Aoes. 1925. 
8 Psychojogjes o/ 1925. 1926. 
135 
dedo fsico e o animal fsico. No obstante, o autor  que abomina a prpria idia da experincia   aqui to fortemente 
influenciado por um fato de agrupamento visual que, por um momento, se esquece de seus axiomas de behaviorismo e 
presta informaes de maneira que s tem sentido partindo do ponto de vista da experincia perceptiva. Na realidade, faz 
le ainda pior, pois, ao empregar a expresso estendeu o brao para adota o ponto de vista da psicologia intencional. Na 
segunda informao, o mesmo se aplica s palavras evitando o contacto com.  claro que, se algum evita contacto com 
um objeto ou se estende o brao para alguma coisa, os fatos psicolgicos envolvidos esto excelentemente retratados no 
campo perceptivo de um observador. 
Nos ltimos exemplos,  mais o aspecto espacial e no o temporal, do comportamento percebido que se parece com as 
experincias internas de uma pessoa. Como mais um exemplo nesse sentido, podemos observar que as pessoas em estado 
de depresso patolgica costumam assumir uma postura curva, semelhante  de uma pessoa normal em um perodo de 
extrema fadiga ou sofrimento. Justamente o contrrio  observado nos pacientes portadores de uma euforia ou entusiasmo 
acima do normal. Seus corpos freqentemente mostram um porte erecto, correspondente, e em um caso descrito pelo Dr. 
Janet, o paciente se ps a andar na ponta dos ps. So outros notveis fatos visuais que expressam diretamente situaes 
mentais. 
Muitos leitores devem estar familiarizados com o exemplo seguinte, que tirei da psicologia social. Um homem que ocupa 
posio elevada, para a qual talvez tenha o corao demasiadamente bom, est acostumado a tratar seus subordinados como 
amigos. Quando se v obrigado a censurar severamente um dles e faz-lo sentir que as relaes amistosas terminaram, tal 
homem pode-se tornar um objeto altamente sugestivo para observao. Se no tiver adquirido experincia em ocasies 
anteriores, ter le a maior dificuldade para dizer as palavras decisivas. Apesar da seriedade de suas intenes, no dir tais 
palavras e, sim, outras que no vo diretamente ao centro da questo. Se o outro homem  bastante sensvel, adivinhar 
tda a verdade pelo que ouve, mas o que  realmente dito deixa uma espcie de vu em trno da questo principal. Visto de 
fora, o comportamento do alto funcionrio  a imagem de sua perturbao interior. le sabe muito bem o que deveria fazer, 
mas fatres sociais o impedem de agir exatamente de acrdo com sse programa. Podemos v-lo caminhando de um lado 
para o outro, diante do culpado, fugindo constantemente  ao direta. Quando pra, seus olhos so dignos de observao. 
No jgo sensvel dos olhos, as resolues internas, mas tambm as dificuldades, de uma pessoa tornam-se mais 
reconhecveis do que em qualquer outra parte. Naturalmente,  bem fcil olhar diretamente para os olhos de um homem, 
quando lhe dizemos amabilidades em que le no acredita de todo. Neste caso, as fras sociais no oferecem resistncia, 
mas, ao 
136 
contrrio, atuam precisamente naquela direo. Experimentemos porm, olhar para os olhos de um homem, 
quando lhe dizemos algo que deve choc-lo, em face das convenes sociais. Para algumas pessoas, isso  
uma tarefa extremamente difcil, em particular se antes as relaes foram muito amistosas. Em nosso exemplo, o 
homem pode muito bem ter tido idia de olhar para os olhos do outro, mas seus prprios olhos ou paravam, na 
bca ou no nariz, por exemplo, ou se realmente fitavam os olhos do outro, logo se afastavam. Da mesma 
maneira com que asse homem, ao censurar um subordinado, sendo suas intenes se desviarem, e suas 
palavras evitam o passo socialmente decisivo, assim tambm seu comportamento se mostra persistentemente 
afastado do objeto, muito especialmente dos olhos do outro homem, onde parece estar localizado o prprio 
centro de sua personalidade. 
O motivo pelo qual essas semelhanas no so fatos com os quais o psiclogo esteja famffiarizado, reside, 
provvelmente, na tendncia analtica da nossa cincia. Enquanto raciocinarmos sbre situaes perceptivas, 
em funo de matizes locais de brilho, colorido, etc., no encontraremos apoio para o ponto de vista de que o 
comportamento costuma parecer-se com os fatos mentais. Se, porm, encararmos o comportamento de um 
modo mais simples, e permitirmos que o agrupamento, direo, tenso, etc., nos impressionem como 
naturalmente impressionam, ento tal ponto de vista no mais nos surpreender. 
Convm dizer agora mais algumas palavras sbre o aspecto genrico do problema. Por que motivo o 
comportamento percebido de uma pessoa muitas vzes se parece com os processos mentais dessa pessoa? Em 
muitos casos, a resposta  bem simples. Vejamos ste exemplo: 
enquanto executa uma sonata, um pianista vive em uma corrente de acontecimentos dinmicos claramente 
organizados. Enquanto experimenta a sua prpria execuo, termina le agora uma frase musical e comea a 
seguinte um momento depois; comea um crescendo como a qualidade de Ehrenfels de um processo e um 
ritardando como uma outra. Ora, quaisquer que possam ser as leis da inervao motora, os impulsos 
conduzidos aos seus msculos certamente dependem da organizao da msica tal como le a tem no esprito. 
Fisicamente, o resultado consiste em ondas sonoras no ar, que no so organizadas, mas meras seqncias de 
osdilaes reciprocamente independentes. No obstante, algo permanece nessas ondas que, em seu conjunto, 
 suficiente para a organizao adequada do que o pblico ouve. Quando o pianista tenciona executar um 
crescendo, sua execuo resulta em uma srie de ondas de intensidade crescente. No pblico, isso faz surgir 
um fato unitrio auditivo que tem a qualidade de dilatao de Ehrenfels. Quando o pianista termina uma frase 
e comea uma outra, d s ondas sonoras tais relaes de proximidade temporal, intensidade, etc., que elas se 
mostram capazes de estabelecer a mesma articulao nos campos auditivos das pessoas que assistem ao 
concrto. A situao  mais ou menos a mesma no caso de objetos fsicos que aparecem 
137 
como coisas isoladas na experincia visual. Embora as ondas luminosas que sses objetos refletem, e, portanto, os 
estmulos que se imprimem na retina, no sejam de modo algum organizados, as relaes formais entre os estmulos so 
bem preservadas na transmisso. Em resultado, a organizao costuma estabelecer as coisas assertadas na percepo. Em 
nosso presente exemplo, contudo, a organizao vai mais longe ao restabelecer certos fatos do que no caso dos objetos, 
pois o que o pblico ouve est de acrdo no smente com os processos nervosos do pianista, como tambm com as suas 
intenes e aes musicais como fatos psicolgicos. Para compreendermos sse aspecto da situao, devemos lembrar-nos 
das observaes que fecham o Captulo 2. Quando o pianista executar uma frase como um processo unitrio, deveremos 
presumir que os processos cerebrais correspondentes constituem uma unidade funcional, ou devemos presumir o 
contrrio? Onde nessa experincia, a frase termina e, ento, uma nova frase se inicia, devemos supor que os processos 
correspondentes no crebro do homem so uniformemente coerentes, ou devemos presumir que a organizao temporal 
dsses processos tambm apresenta uma descontinuidade? A Psicologia da Gestalt sustenta que, em ambos os casos, a 
organizao fisiolgica  a mesma que a organizao mental. ste ponto de vista  tambm sustentado com referncia a 
todos os outros aspectos da organizao. Assim, a inervao projeta sbre os msculos do pianista uma organizao que 
seus processos mentais e correlativos cerebrais tm em comum. Dste modo, so determinadas as relaes formais entre as 
ondas sonoras resultantes. A organizao auditiva das pessoas que ouvem a sonata, porm, depende de tais relaes. Em 
conseqncia, suas experincias so organizadas de uma maneira que se ajunta  organizao dos processos do pianista. 
* 
Mesmo se tudo isso  verdade, nossa compreenso das outras pessoas no continua a ser um processo indireto? Na 
verdade, quando as vemos e ouvimos, as outras pessoas podem, muitas vzes, apresentar caracte rsticas que se parecem 
com suas experincias interiores. No obstante, tais fatos perceptivos no so, por sse motivo, idnticos s experincias 
interiores daquelas pessoas. Neste ponto, portanto, a presente anlise no parece oferecer melhor soluo de nosso 
problema que tem sido oferecida por outros. Tambm ns parecemos necessitar de um passo final, uma inferncia, que 
conduza de certas experincias perceptvas aos processos mentais dos outros. A semelhana pode facilitar essa inferncia; 
mas a inferncia, ou algum outro processo indireto, parece ser necessria em qualquer circunstncia. 
Procurarei, agora, explicar porque no posso aceitar ste raciocnio. Assim fazendo, terei de defender certa forma de 
behaviorismo embora no o behaviorismo que foi estudado no Captulo 1. 
Se, em uma noite, eu me lembro dos contactos com outras pessoas que tive durante o dia, chego  concluso 
de que, em sua maior parte, no me pareceu particularmente difcil compreender tais pessoas. No entanto, 
tenho certeza de que, durante sses contactos, dificilmente eu me terei ocupado das experincias internas 
daquelas pessoas per se. E agora que reflito sbre isso, posso naturalmente tentar deliberada- mente evocar 
imagens da maneira pela qual o Sr. X e a Sra. Y provvelmente ter-se-iam sentido nesta ou naquela ocasio. 
Tambm posso fazer essas tentativas quando me encontro, realmente, junto de tais pessoas. Durante o 
esfro, porm, em breve percebo que se trata de um processo com o qual no estou, de modo algum, 
familiarizado; evidentemente, raras vzes, pratico algum ato desta espcie na vida social normal. Alm disso, o 
esfro costuma perturbar a maneira pela qual naturalmente compreendo as pessoas e que muitas vzes parece 
atuar de maneira muito mais satisfatria. Quando os compreendo dsse modo, presto ateno principalmente  
voz e  aparncia das pessoas; naturalmente, tambm, quando elas falam, ao contedo de suas palavras. Mas 
tambm aqui poucas vzes traduzo o contedo dessas palavras em funo da experincia subjetiva. Ao 
contrrio, so palavras em si mesmas que parecem trazer o sentido em questo. Aparentemente, sempre me 
esqueo de dar o passo final, mediante o qual devemos penetrar na vida ntima de outras pessoas. 
Nossa anlise refere-se ao entendimento tal como ocorre em circunstncias ordinrias. Presentemente, no 
estamos preocupados com as questes epistemolgicas que um filsofo sugeriria em tal conjuntura, nem 
consideramos os meios pelos quais um psiclogo procuraria investigar os processos mentais dos outros. Os 
fatos da vida social que estamos considerando ocorrem na ausncia de quaisquer conceitos tericos. Para um 
terico, que distingue perfeitamente os dados perceptivos dos fatos da experincia subjetiva em outros, a 
passagem dos primeiros para os ltimos pode parecer absolutamente necessria para que os homens se 
entendam uns aos outros. Na vida comum, porm, no damos ateno s premissas filosficas que conduzem a 
essa convico. Antes de mais nada, na vida comum somos cndidos realistas. No temos a idia de 
considerar as coisas que nos rodeiam como simples verses perceptivas das coisas fsicas. Isso se aplica 
tambm aos objetos particulares que chamamos de outras pessoas. Em conseqncia, tdas as caractersticas 
que as coisas e pessoas devem  organizao perceptiva so, comumente, consideradas como caractersticas 
das coisas e pessoas em si mesmas. Mas tambm no atentamos para uma segunda distino: 
no traamos uma ntida linha divisria entre os fenmenos subjetivos, no significado rigoroso da expresso, e 
os fatos perceptivos que constituem os corpos humanos. Afinal de contas, por que o faramos? Em nosso 
prprio caso, muitas experincias subjetivas parecem vagamente estar localizadas dentro do nosso corpo e 
muitas vzes virtualmente confundidas com algumas de suas caractersticas perceptivas. Em muitos 
138 
139 
casos,  extremamente difcil decidir se determinado fato subjetivo  uma inclinao de nosso corpo ou de ns 
mesmos, em um sentido mais restrito. Por que deveria ser adotado um ponto de vista diferente com respeito 
aos corpos dos outros? stes corpos, tambm, oferecem muitas vzes caractersticas que so, sob muitos 
aspectos, exatamente iguais a fenmenos subjetivos. Assim enquanto dvidas epistemolgicas no 
desempenhem qualquer papel, consideramos como certo que direes, tenses, esforos, excitaes, etc., de 
outras pessoas apaream em seus prprios corpos, interna e externamente. 
Esta , parece, a razo pela qual nos contactos sociais da vida comum poucas vzes  dado o passo final entre 
os fatos perceptivos e os processos mentais. Do ponto de vista da simples fenomenologia no precisa le ser 
dado. Se eu me refiro  calma de um homem que est diante de mim, refiro-me a um fato que percebo. Essa 
calma parece ser da mesma espcie do estado que algumas vzes encontro e algumas vzes deixo de 
encontrar em mim mesmo. Em circunstncias ordinrias, no me interessa qualquer outra calma que possa ser 
atribuda ao homem. Do mesmo modo, se o homem fica excitado, o crescendo, que ocorre diante de meus 
olhos e ouvidos, no , naturalmente, um fato sensorial neutro; em vez disso, a dinmica do acontecimento 
perceptivo , ou contm o que eu chamo a excitao do homem. No indago a mim mesmo se alguma coisa que 
pertence a um mundo diferente acompanha a impressionante exibio. Tal questo smente se apresenta 
quando assumo a atitude artificial com que os filsofos e psiclogos encaram a situao. Naturalmente, na 
vida quotidiana, jamais assumo tal atitude. Quando tomo conscincia da hesitao, inquietao, 
determinao, depresso, esquivana, aproximao, etc., de outra pessoa, poucas vzes sou tentado a 
ir alm dos fatos perceptivos em si mesmos, os quais, repito, esto longe de ser fatos neutros. Quando 
emprego comumente tais expresses, elas se referem a acontecimentos no espao perceptivo. 
Convidarei o leitor a fazer uma simples observao antes de criticar estas afirmaes. No  difcil embaraar 
outra pessoa. Convido o leitor a assim fazer e, se fr bem sucedido, a perguntar a si mesmo se o embarao de 
outra pessoa  um fato perpectivo, ou algo que acontece em outro mundo. Naturalmente, durante a 
observao, o leitor teria de abster-se de qualquer raciocnio filosfico. 
A presente explicao precisa ser amplificada em um ponto. Quando digo que o entendimento social comum se 
refere a certos acontecimentos perceptivos, somos forados a presumir que tais acontecimentos ocorrem 
apenas na superfcie do corpo de outra pessoa. No entanto, no que diz respeito  descrio fenomenolgica, 
isto nem sempre  inteiramente verdadeiro, pois os acontecimentos em questo s vzes parecem emergir do 
interior do corpo. Contradiz esta observao  nossa anlise? A resposta vem de outra pergunta. Qual  o 
interior de que sses acontecimentos parecem vir? Evidente,  o interior do corpo, como 
unidade perceptiva. Ora, se emergem acontecimentos de um volume que  cercado por certa superfcie, o volume e a 
superfcie pertencem, evidentemente, ao mesmo mundo, que, no presente caso,  o mundo dos fatos perceptivos. Assim, 
ainda  o corpo, como um percept do interior do qual os fatos emergem. Conseqentemente, essa observao  
inteiramente compatvel com nossa descrio do entendimento social.9 
Nossa anlise tem uma conseqncia que no foi mencionada at agora. Se o organismo de um ser humano pode emitir 
estmulos que do origem a fatos perceptivos com ingreclintes psicolgicos, no h razo para que os estmulos que vm 
de outras fontes nunca sejam capazes de causar efeitos semelhantes. Naturalmente, as imagens de pessoas, particularmente 
daquelas que vemos se movendo em uma tela de projeo, satisfazem as condies necessrias. Independentemente, 
contudo, de exemplos to banais, h outros acontecimentos e objetos que nos impressionam da mesma maneira. Poucas 
pessoas podem ouvir o retumbante crescendo de uma trovoada distante como um fato sensorial neutro;  maior parte 
delas parece ameaador. No que diz respeito  percepo, vrias condies meteorolgicas aparecem igualmente 
impregnadas de caractersticas psicolgicas.b0 Falamos, assim, de tempo calmo e ameaador, feio e bonito, etc. 
Tais expresses so empregadas tambm com relao a paisagens, ao aspecto das ruas de uma cidade e assim por diante. 
Repetindo: seria surpreendente e constituiria sria objeo  nossa argumentao geral, se smente as criaturas vivas e suas 
imagens apresentassem as caractersticas de Ehrenfeis dsse tipo. Ao contrrio, porm, a freqente ocorrncia de 
fenmenos semelhantes em outras partes do mundo perceptivo corrobora nossa tese de que no h necessidade de apelar 
para interpretaes dependentes de experincias subjetivas. O homem moderno no atribui tais experincias a uma 
tempestade ou paisagem, e, no entanto, ouve a ameaa na trovoada e a benevolncia em algumas paisagens. 
* 
De vez em quando, devo admitir, o problema do entendimento social parece apresentar dificuldades que no podem ser 
removidas por meio de nossa presente anlise. Aparentemente, o comportamento nem sempre se parece com a 
experincia interior que o acompanha. Ser a risada, tal como  ouvida pelos outros, uma expresso adequada dos fatos 
subjetivos que ocorrem na pessoa que ri? Acho difcil responder 
9 lcito indagar como um acontecimento pode emergir do interior do corpo, quando este interior no  visvel. Semelhantes fatos de 
transcendncia no so, de modo algum, raros na percepo. Como o problema diz respeito mais  percepo em geral que s nossas presentes 
investigaes, no podemos discuti-lo aqui. 
10 Neste caso, h uma complicao, As condies do tempo no nos afetam apenas pelo estmulo dos rgos sensorials e subseqente organizao 
perceptiva, mas t5mbm de um modo biolgico mais direto. 
140 
141 
a esta pergunta. Se a resposta correta fsse negativa, as interpretaes indiretas do entendimento teriam de ser 
consideradas em primeiro lugar. Em vista, porm, dos fatos que temos aqui discutido, tais interpretaes teriam 
de ser grandemente modificadas. Com efeito, se nossa interpretao  correta, isto , se o entendimento , 
muitas vzes, inteiramente direto, ento qualquer ampliao dsse entendimento direto por meio de processos 
indiretos encontrar seu curso mais ou menos prescrito. Mais particularmente, o entendimento direto 
influenciar o entendimento indireto tanto em um sentido negativo como em um sentido positivo. Os fatos do 
entendimento direto resistiro a tdas as amplificaes indiretas que no se acordem com aqules fatos e 
facffitaro qualquer entendimento indireto que estiver de acrdo com a prpria tendncia dsses fatos. 
Independentemente dos casos em que o comportamento percebido no se parece com as experincias de uma 
pessoa, o entendimento direto em si mesmo tem suas limitaes. No podemos afirmar que a vida interior de 
uma pessoa seja inteiramente revelada por seu comportamento. A maior parte das pessoas esconde-se desde 
cedo, e isto  verdade, particularmente, quanto  vida emocional e suas motivaes. Os atres, pianistas, 
cantores e declamadores poucas vzes revelam o nervosismo que muitos dles sentem diante do pblico. Na 
verdade, a calma que foi adquirida apenas como uma capa social, s vzes, pode deixar de convencer, 
justamente porque exige um esfro, mas  uma verdade incontestvel que inmeros fenmenos que se 
passam na vida ntima de uma pessoa permanecem inteiramente ocultos, enquanto essa pessoa se encontra na 
companhia de outras. Seria tambm espantoso se os estmulos que nascem de um organismo humano dessem 
sempre origem a uma representao perceptiva plenamente adequada daqules fenmenos. Muita coisa se 
perder e muita ser deturpada. Afinal de contas, a conexo funcional entre os processos interiores de uma 
pessoa e suas conseqncias perceptivas em outras constitui uma cadeia causal enormemente complicada. 
Afirmando que o entendimento social  principalmente da espcie aqui considerada, no decidimos se o 
entendimento nsse sentido pode ser empregado como prova no trabalho psicolgico. Superficialmente, tem-
se a impresso de que a resposta a uma pergunta neste sentido deveria ser rigorosamente negativa. No 
verificamos que mesmo o trovo, o estado atmosfrico e as paisagens apresentam fatos do mesmo tipo? Em 
tais casos, ningum considerar tais fatos como provas de processos psicolgicos. Parece, assim, que 
ningum confia realmente no entendimento direto. Embora ste argumento se mostre impressionante, no o 
considero de todo convincente. Muitos fatos perceptivos, concernentes  cr, ao formato, ao movimento, etc., 
so usados, de vez em quando, nas cincias naturais, e, no entanto,  bem sabido que a cr, a forma e o 
movimento de objetos perceptivos esto muitas v2es sujeitos a influncias que, em tais condies, tornam 
tais fatos 
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inteis para o cientista. Por sse motivo, so les smente tidos como certos de um modo preliminar e, com notveis 
excees, postos inteiramente de lado nas medies de verdade. No nosso caso, parece aconselhvel seguir, mutatis 
mugandis, o exemplo, sto , confiar no entendimento imediato, tal como aqui se descreveu, desde que, num determinado 
caso, no haja motivo para desconfiana. Se fssemos rejeitar inteiramente seu testemunho, poderamos, com facilidade, 
perder de vista fatos que escapam a mtodos mais ortodoxos de Psicologia. Nenhum psiclogo, contudo, deve confiar no 
entendimento nesse sentido, sem estar plenamente consciente de seu perigo. 
Estas observaes, naturalmente, no se referem ao entendimento direto como uma fase notvel de percepo. Poucos 
fatos perceptivos so to interessantes, particularmente para o psiclogo social, mas poucos, tambm tm sido to 
constantemente negligenciados. 
BIBLIOGRAF 
E. von Hornbostej: Fe8tschrift Meinhof. 1927. 
L. Klages: Vom Wesen des Bewusstgejns. 1921. 
W. Khler: Die Methoden der psychologischen Forschung an Af fen (Cf. Cap. II). 
W. Khler: The Place of Value in a World of Facts (Cap. IV). 1938. 
